Raul Zibechi no Cerrado – Uma visita necessária, um debate por fazer

por Paíque Duques Santarém  (com colaborações de Diguilim, Dani Rueda e Raíssa)

Nós acreditamos que ninguém pode vir nos dizer como lutar, ninguém pode vir domesticar nossa rebeldia nem colonizá-la com as verdades que serviram – ou não – para outros. Também reconhecemos os limites de nossas próprias práticas, o trabalho a longo prazo e sem manual com o qual  nós compartilharemos os saberes que estamos construindo coletivamente, aprendendo entre as lutas, construindo nosso próprio imaginário, povoando nossos territórios com as esperanças desse mundo pós-capitalista tal e como o sonhamos. Isso pode parecer muito frágil, insensato. Porém, para nós, é nesta fragilidade e insensatez que reside nossa verdade e nossa força. Liberdade! Autonomia! Autogestão! Horizontalidade!”1

Bajo Tierra Ediciones – jóvenes en resistência alternativa (Apresentação de Descolonizar el pensamiento crítico e as rebeldias – Autonomías y emancipaciones en la era del progresismo)

1Tradução Livre realizada por Daniela Rueda.

LINK: Programação de Raul Zibechi no DF

Vivemos tempos difíceis, isso não é novidade para ninguém. Após um breve êxtase em que fomos levados/as a acreditar que por muito tempo não teríamos crises estruturais, chegamos em um período em que a depressão econômica, psicológica, comunitária vem aliada a um processo de ataques violentos aos nossos direitos e sonhos de futuro. Especialmente a quem dedica parte relevante de sua vida às lutas sociais, o tempo sombrio de hoje nos apresenta uma encruzilhada: como sobreviver e pensar em futuro, uma vez que a conjuntura política do país, continente e mundo são tão assustadoras?

Este texto não busca oferecer uma resposta a esta questão crucial, mas apresentar uma boa oportunidade de refletir sobre estes temas em um conjunto de atividades que ocorrerão no Distrito Federal com o militante social, escritor e companheiro uruguaio Raul Zibechi. Ele, que tem origem militante nas organizações Tupamaros, passando pelo exílio na Europa e retornando à América Latina ao fim dos anos oitenta, tem uma trajetória bem parecida com a de muitos/as lutadores/as das gerações anteriores à nossa. Sua diferença à maioria destes e destas são os caminhos que trilhou, distante do poder político negociado e domesticado que foi ocupado por tantos outros. Seu caminho foi o de reconhecer os limites de sua geração, formas de luta e buscar superá-las a partir do vinculo definitivo com as diferentes lutas sociais latino americanas, apoiando, refletindo e aprendendo com estas mesmas.

Sua principal forma pública de militância foi a de educador e escritor: realizando atividades educativas em todo o continente e escrevendo sobre os conceitos próprios das organizações e comunidades, Zibechi tem livros relevantes sobre muitas lutas em toda América Latina, desde os/as Zapatistas (México), aos Mapuche (Chile), Sem Terra, Piqueteiros/as (Argentina), Cocaleiros/as (Bolívia), Organização Nacional Indígena de Colômbia, Movimento Passe Livre, CONAIE (Equador), Periferias Urbanas, entre outras. Uma característica marcante de sua obra é a de refletir sobre a realidade não buscando enquadrar os movimentos em alguma perspectiva anterior ou pré-moldada, mas sim analisando a realidade a partir da própria conceituação criada pelas organizações em luta.

Por exemplo, em seu livro “Genealogia da revolta – Argentina: sociedades em movimento”, ele investiga como a rebelião argentina de novembro de 2001 foi constituída por anos de organização subterrânea não percebida pelas instâncias do poder e também aborda o conceito de ‘Luta’ em duas dimensões: uma primeira, tradicional à esquerda, é a de luta como instância de guerra que deve submeter-se a dinâmicas hierárquicas e planejamento militar. De outro lado, fala da luta em sua acepção popular, como os enfrentamentos constantes e cotidianos que as comunidades realizam em favor de sua própria sobrevivência. Ele analisa como esta segunda dimensão, desprezada pela esquerda tradicional, gestou as possibilidades de uma dinâmica criativa, consolidando relações por fora e contra a dinâmica estatista burocrática e capitalista mercantil. A partir daí constituiu-se um largo processo comunitário que possibilitou a reação aos males do neoliberalismo argentino com uma potência capaz de derrubar governos e levar o país a mudanças profundas.

Entramos então em uma larga reflexão sobre as lutas continentais dentro da chave da Autonomia dos Povos Latino-americanos. Compreendendo a localização histórica e características próprias deste território, observa que as organizações latino americanas do último período tem como principal característica não serem estadocêntricas e sim baseadas em valores comunitários oriundos de diferentes tradições e perspectivas (as cosmovisões negras e indígenas). Suas regras, dinâmicas e processos tem forma própria. Por exemplo: desenvolvem-se em uma velocidade lenta, cheias de idas e vindas, revezes. Tratam-se de organizações em constantes dinâmicas complexas. Elas enfrentam lutas internas e externas, uma vez que suas contradições próprias são somadas aos processos de dominação colonial, estatal e capitalista.

Descolonizar o saber – a partir do diálogo com Franz Fanon e outros/as lutadores/as anticoloniais, Zibechi busca realizar um vínculo entre o desenvolvimento do capitalismo e da colonialidade na América Latina, compreendendo que as instituições e percepções sociais/populares de luta anticapitalista de países não colonizados são distintas das instituições de luta anticapitalistas das sociedades coloniais. As relações com a democracia burguesa, família, território, intelectualidade e identidades são diferenciadas nas sociedades onde os povos oprimidos são instruídos pela colonialidade a não se reconhecerem, não desejarem-se, não afirmarem sua autenticidade e, além disso, vivem em processo estrutural/constante de genocídio. Neste sentido ele realiza uma dura crítica a quem analisa os processos locais com os olhos eurocêntricos, sem compreender as distinções da dominação e resistência locais. Não se trata, em absoluto, de abdicar da dimensão Geopolítica, Imperialista e global de exercício do poder. Trata-se, ao contrário, de entender como as lutas globais desenvolvem-se em diferentes espaços históricos.

Por exemplo, podemos refletir sobre sua leitura das distinções entre as formas de luta deste continente. O seu conceito de Sociedades em Movimento é uma proposta que compreende o duplo caráter das lutas sociais na América Latina: a primeira, mais comum ao conceito de movimentos sociais, é a de organizações que lutam e reivindicam direitos e questões ao estado. A segunda (Sociedades em Movimento), que o conceito de movimentos sociais não trata necessariamente, é a de que estas organizações tem, em seus processos constitutivos, capacidade de produzir novidades e mundos novos desde suas relações sociais territoriais e constitutivas. Ou seja, a partir de um pensamento descolonizado sobre as lutas latino americanas, as formas próprias de luta daqui teriam potencial contrassistêmico pelas relações sociais que constituem desde suas ancestralidades e cosmovisões.

Estas sociedades em movimento organizam-se nos chamados Territórios em Resistência, uma vez que seus processos passam em grande parte pelas relações comunitárias territorializadas. Aqui abre-se a possibilidade de dialogar com as diferentes formas de vínculos dos assentamentos, aldeias, quilombos tanto no campo quanto na cidade nas periferias urbanas e rurais. O espaço do território não é entendido ingenuamente como um espaço sem ações do capital ou conflitos próprios, pelo contrário: são espaços onde as práticas e relações das sociedades em movimento podem desenvolver-se e resistir às dinâmicas de dominação, aniquilação e cooptação pelo estado e capital. Sobrevivendo à arte capitalista-colonial de governar movimentos, desenvolvem-se como Territórios de Emancipação.

As diferentes formas de dominação do capital e leituras da resistência

Uma característica importante do pensamento de Raul Zibechi é compreender as diferentes formas de dominação e cooptação realizadas objetivamente contra nós e também os limites de alguns caminhos de resistência que empreendemos. Por um lado, o autor analisa as formas de dominação colonial-capitalista em resposta às sociedades em movimento: trata-se da Guerra de Espectro Total, que não trabalha somente a partir da ação militar para derrotar oponentes. Na verdade, a ação militar é secundarizada frente a várias iniciativas sociais e econômicas de desestabilização comunitária: passando por colaborações estatais aos movimentos, dinâmicas de cooperação com empresas e propaganda de formas capitalistas de organização como perspectiva de crescimento, supressão das dinâmicas contra-hegemônicas por formas estatistas e capitalistas de organização. São novas formas de dominação que passam por dentro das lutas anti-sistêmicas, convertendo suas principais energias em projetos de cooperação com o capital.

Este processo é entendido a partir da formulação zapatista sobre a “Quarta Guerra Mundial” (aquela que se realiza hoje pelos donos do poder e capital contra os povos de todo o mundo) caracterizada pelo extermínio e controle das populações de baixo por meio de uma guerra irregular de baixa intensidade. Neste sentido, a desarticulação das organizações comunitárias pelo capital é uma das mãos do processo de Acumulação por Extermínio, processo de dominação que implica no genocídio massivo das populações em resistência. O Genocídio da População Negra no Brasil, um processo estrutural e fundante da nação brasileira, é um motor central deste processo atual de dominação – assim como a espoliação e genocídio indígena e camponesa. Zibechi não abdica em momento algum da necessidade de compreender a realidade local sob o marco estrutural do Genocídio étnico-racial como elemento chave da política desde continente.

Da parte de nossas debilidades internas, o autor tem se debruçado especialmente na compreensão dos limites do projeto progressista de transformar a realidade por meio das disputas eleitorais. Zibechi analisa as fragilidades da estratégia de mudar o mundo de cima para baixo, ou seja, o projeto que utilizou as sociedades em movimento como mero trampolim para conquistas eleitoreiras ou mesmo os movimentos sociais que optaram pela disputa institucional em detrimento das lutas de baixo. Estamos vivendo, com muita dor, os limites desta estratégia nos tempos atuais: em toda América Latina os governos progressistas tem sido derrubados, quando não eles mesmo implementando de uma política claramente reacionária e extrativista. A análise feita pelo autor é de que estes limites estão presentes desde antes dos processos golpistas que se desnudaram agora: eles passam pela forma de construção do poder por cima, pela consolidação de gestores dissociados da luta social, pelas alianças com o modelo extrativista capitalista. O governo brasileiro recentemente golpeado, por exemplo, teve seu auge caracterizado tanto pela circulação de renda para os de baixo como também pelo seu desenvolvimento enquanto potencia sub-imperialista latino americana (o “Brasil Potência”), reproduzindo dominações continentais e gestando o ovo da serpente que vem lhe matando por envenenamento.

Capa do livro da versão brasileira.

Neste sentido, Zibechi oferece uma reflexão distinta sobre os ainda tumultuados eventos do Junho de 2013 no Brasil. Compreendendo a emergência de novos sujeitos sociais, a falência do modelo de mudar o mundo de cima para baixo, somados à emergência de um novo processo de dominação capitalista e de uma nova direita por meio do Extrativismo, compreende-se que, se há alguma responsabilidade que possa ser atribuída aos movimentos que saíram às ruas em 2013, é justamente a responsabilidade de ter constituído algum facho de esperança e novas saídas aos problemas causados pelo progressismo. De acordo com sua interpretação, não foram os mascarados de 2013 que deram origem à crise econômica e política Foram os próprios governos progressistas – a partir de sua política capitalista e conciliadora de classes – os principais responsáveis. Os movimentos e organizações sociais que saíram às ruas naquele período possibilitaram ferramentas de luta para o período turbulento que agora enfrentamos.

Se este processo nos coloca em um momento de derrotas fundamentais, ele é somente parte de um ciclo político como tantos outros, que pode ser superado por meio de nossas novas formas de resistência. Ao contrário de uma perspectiva fatalista sobre o futuro, a reflexão do autor nos oferece, por meio da descrição de inúmeras práticas e iniciativas de diferentes comunidades, é de como podemos sobreviver aos limites do nosso tempo histórico. Uma resistência criadora, que possibilita a emergência de novas formas societárias. Os golpistas não venceram o conflito, pelo contrário, eles tem um desafio maior que o nosso de sustentar um sistema político próximo do colapso. A esperança ainda está do nosso lado.

Zibechi no Cerrado: em chamas ou em cinzas?

Raul Zibechi realizará na próxima semana um conjunto de atividades no Distrito Federal. Estará lançando seu livro “Os limites do progressismo: sobre a impossibilidade de mudar o mundo de cima para baixo”. Acreditamos que seus conceitos ajudem a dialogar com o tipo de conjuntura e lutas que enfrentamos localmente. Aqui vivemos um processo social em que as disputas sociais são territorializadas em um Distrito com núcleos urbanos distantes entre si; com uma centralização segregadora dominada pela especulação imobiliária; com a trajetória de uma esquerda apartada entre aquela que só realiza dinâmicas no centro vinculadas ao poder e a outra que está esquecida em trabalhos invisibilizados nas periferias e quebradas; de uma dinâmica política que se alimenta das lutas sociais para converter-se em poder estatal e que não ataca em nada a exploração econômica; além de diversas iniciativas e lutas que têm resistido territorialmente aos avanços do capital em sua atual forma imobiliária especuladora.

A esquerda do DF assistiu, além de seus processos locais penosos, às últimas grandes vitórias do retrocesso. Aqui foi aprovado o conjunto do processo de Golpe (da PEC, da Reforma Trabalhista, do Genocídio Indígena). As mobilizações contra estes processos, acompanhadas por uma brutal repressão policial, marcaram a todos e todas. Igualmente passamos por um processo local de avanço neoliberal, em uma aliança cada vez mais explícita entre gestores nascidos na esquerda e setores mais pujantes do avanço capitalista. A esquerda do DF e Entorno vive uma situação própria e muito complicada de luta.

Será possível que a partir de nossa trajetória de lutas e conquistas (Cotas Raciais; Passe Livre Estudantil; Ocupação da Reitoria; Fora Arruda; Santuário dos Pajés; Mercado Sul Vive; Ocupações Estudantis; Greves Radicalizadas no setor público; Movimentos Periféricos, Negros, Feministas; Ações Culturais, Saraus, Batalhas) poderemos resistir à guerra de espectro total que enfrentamos? Cabe aqui a formulação: nossos territórios são de resistência e emancipação? O conceito de Sociedades em Movimento nos ajuda a lutar, pensando em dinâmicas de luta que constituam um mundo outro? Estamos em um processo de lutas que constroem outro futuro enfrentando as dinâmicas coloniais ou estamos reproduzindo inconscientemente formas dominadas de ação?

Certamente Raul Zibechi não responderá a estas questões. Trata-se somente de um militante, escritor, com seus próprios limites pessoais e localizações históricas (sim, trata-se de um homem cis hétero branco e letrado). Todavia seu processo de produção intelectual, difusão de práticas de outras lutas e formas de organização podem nos ajudar a refletir sobre nossos problemas e os fenômenos gerais que nos afligem. A responsabilidade por superar nossos desafios continua sendo nossa. Este “nós”, ainda indefinido, pode ser estendido pelo continente, diáspora, classe. Simultânea e conjuntamente.

Referências Bibliográficas

Coluna de artigos em espanhol – http://rebelion.org/mostrar.php?tipo=5&id=Ra%FAl%20Zibechi&inicio=0

Artigos/Entrevistas em Português (online)

1) ZIBECHI, R. Quando a esquerda é o problema. IHU Online, Unisinos, Vale do Rio dos Sinos (RS), 17 abr., 2017. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/566744-quando-a-esquerda-e-o-problema-artigo-de-raul-zibechi

2) ZIBECHI, R. Acumulação por extermínio. IHU Online, Unisinos, Vale do Rio dos Sinos (RS), 13 jul., 2016. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/557632-acumulacao-por-exterminio%20%7C

3) ZIBECHI, R. Os Estados Unidos ganham no Brasil. IHU Online, Unisinos, Vale do Rio dos Sinos (RS), 28 out., 2015. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/169-noticias/noticias-2015/548354-os-estados-unidos-ganham-no-brasil-artigo-de-raul-zibechi

4) ZIBECHI, R. Um novo ciclo de lutas. IHU Online, Unisinos, Vale do Rio dos Sinos (RS), 27 out., 2015. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/169-noticias/noticias-2015/548315-um-novo-ciclo-de-lutas-artigo-de-raul-zibechi

5) INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. A opção que não transformou e que perdeu o fôlego: entrevista especial com Raúl Zibechi. IHU Online, Unisinos, Vale do Rio dos Sinos (RS), 27 mar., 2016. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/552771-a-opcao-que-nao-transformou-e-que-perdeu-o-folego-entrevista-especial-com-raul-zibechi

Livros

6) Centro de Estudios para el Desarrollo Laboral y Agrario – CEDLA. Cambiar el mundo desde arriba: Los límites del progresismo | Por Decio Machado e Raúl Zibechi. – La Paz: CEDLA, 2016.

7) ZIBECHI, R. Territórios em resistência: cartografia política das periferias urbanas latino-americanas – Rio de Janeiro: Ed. Consequencia, 2015.

8) ZIBECHI, R. Descolonizar El pensamiento crítico y las prácticas emancipatorias, 2015.

9) ZIBECHI, R. Brasil potência – Entre a integração regional e um novo imperialismo, 2012.

10) HARDT, Michel; ZIBECHI, R. Preservar y compartir – Bienes comunes y movimientos sociales, 2012.

11) ZIBECHI, R. Autonomías y emancipaciones – América Latina en movimiento, 2008.

12) ZIBECHI, R. Genealogia de la revuelta – Las zonas grises de las dominaciones y las autonomías, 2003.

1Tradução Livre realizada por Daniela Rueda.

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